25/03/2008

21 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

UM NOVO OLHAR
Por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi

Ronald Duarte, artista carioca criando a obra Verde que te quero Verde, durante o denCidade


A área do conhecimento tida como Estética da Recepção, relativa em sua origem à teoria literária e aplicada, hoje, a todos os campos artísticos, nasceu numa conferência ministrada por Hans Robert Jauss, em 13 de abril de 1967. A partir de então, a arte deixa de ser explicada pela noção limitante da mimese e inclui outros princípios.



Jauss afirma que a arte não existe para confirmar o conhecido e sim para contrariar expectativas.



Próximos dos 41 anos da teoria, no bairro Nossa Senhora da Apresentação visualizamos exatamente todas as 7 teses elaboradas pelo pensador que valorizam o processo comunicativo da arte através do projeto denCidade, aprovado pelo edital Conexões Artes Visuais da Fundação Nacional de Arte (Funarte) e patrocínio da Petrobras.



Uma árvore seca pintada inteiramente de vermelho e uma carroça em chamas subvertem o sentido da natureza dos objetos e chamam atenção para a percepção estética e cheia de sentidos que a obra cria. Um corpo aparentemente desfalecido tomado por carnes e pedaços de plástico costuradas umas às outras contraria a percepção comum dos valores e da sociedade. Um marrete preso a um muro à espera da quebra das fronteiras. Sonhos e árvores plantadas na terra à espera da frutificação. Terra distribuída aos próprios moradores no questionamento de quanto ela vale? Terra pintada de branco na Rua da Paz. Um imenso cordão de garrafas pets arrastadas por garotos em bicicletas quebram o cotidiano em uma sirene de consciência e alegria. Cartazes colados nos muros e residências reafirmam e questionam, a um só tempo, a realidade e suas significações.



Várias outras ações são assimiladas pela comunidade que abre-se a um olhar examinador e pessoal provocado pelas obras distintas.



É justamente essa experiência do público, esse original olhar sobre as coisas, suas análises e comprovações de novos sentidos a sua realidade que estabelece com sucesso as intervenções urbanas realizadas por artistas comprometidos com a arte sim, mas comprometidos também com a vida, traduzidos com alegria por uma moradora: “Vamos continuar!”
FV
Publicado em 25 de março de 2008

19/03/2008

20 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

QUEBRANDO PARADIGMAS
por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi

Cartaz do denCidade. Arte Mário Rasec.

Edmond Couchot comenta no livro A Tecnologia na Arte que o “desejo de comunicação em estado puro, sem intermediário cultural, estabelecido sem desvio, do artista ao espectador” pode se manifestar de uma maneira intensa, mas para isso é necessário sair dos circuitos de difusão tradicional (galeria, museus, exposições particulares ou coletivas) e buscar um contato direto e o mais estreito possível com o público. “A arte desce de seu pedestal, quer conquistar a rua, quer se oferecer a todos.” Nesse sentido as intervenções urbanas, problematizam o senso de obra de arte.


A intervenção urbana designa ao artista um novo estatuto e coloca à arte um novo paradigma. Trata-se do artista etnógrafo. A arte transforma-se num mapeamento etnográfico de comunidades, porém diferente da ciência que colhe o dado e o analisa em ambiente asséptico, a intervenção urbana, é um gesto sobre aquilo que está em movimento, ela é provocativa do lugar, das pessoas. Os ganhos são urbanísticos, estéticos, políticos, cognitivos, éticos entre tantos outros.

É com esse conceito que percebemos o projeto denCidade, em realização, no bairro Nossa Senhora da Apresentação, Zona Norte de Natal. Vale salientar que congregar 23 artistas de vários estados brasileiros e com participação de artistas potiguares é uma das tarefas felizes desse projeto. Além de realizar esse intercâmbio artístico e agir diretamente no bairro, com o apoio e integração da comunidade e diversas entidades locais que o acolhem, com generosidade, como o Conselho Comunitário Nair Bezerra e Alvorada IV, o projeto possibilita o despertar da realidade através da arte.


A poética penetrante no espírito dos artistas é alcançar a apresentação da realidade como matéria bruta de criação o que sugere uma imersão e a definição de um caminho que só é percorrido através do firme propósito da afirmação crítica e social da arte.É preciso acordar para que o artista solicite e exija a libertação das energias expressivas reprimidas pelas instituições que existem também para contribuir na criação de novos conceitos, propostas, linguagens e vocabulários. Isso é urgente para um espaço-tempo reconfigurado há muito. Para tanto, sugerimos que a cidade é o campo de pesquisa; alimento para a construção de poéticas várias, e o denCidade é um exemplo pleno de todo esse processo.

Publicada em 18 de março de 2008

11/03/2008

19 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

CONVERSA COM CILDO MEIRELES
por Marcelo Gandhi, Jean Sartief e Sânzia Pinheiro
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O Fermentações Visuais traz, nesta semana, uma entrevista exclusiva com o artista Cildo Meireles, expoente da arte contemporânea brasileira e internacional.



Fermentações Visuais - Qual o papel da arte no mundo tomado pelo poderio econômico?

Cildo Meireles: A princípio quero crer que o melhor da arte é o que se faz a favor da utopia humana - criar condições para que o homem se torne melhor, em contrapartida com a barbárie cotidiana. Não acho o ser humano mal, a economia gera essa barbárie. Chegamos no limite, veja a questão dos automóveis e seus danos ao meio ambiente. A questão demográfica é outro grande problema no Brasil, devido às questões políticas que dificultam mais do que resolvem. Acho que o nacionalismo é nocivo ao ser humano, enquanto este não compreender que estamos no mesmo barco... pensar fraternalmente, a inexistência de fronteiras pode ser um caminho...

Fermentações Visuais - como você vê esses movimentos quase ou totalmente institucionalizados da arte contemporânea como as bienais, galerias, feiras?

Cildo Meireles: preciso refletir mais para ter uma idéia mais concreta disso enquanto artista... Na arte, bom ou ruim é sempre o trabalho do artista. As feiras interessam aos mercados; as bienais interessam aos curadores e artistas, mas esses níveis se interpenetram - A arte é um bom meio para criticar, mas o artista não pode perder seu foco nas suas reais necessidades e projetos. Eu sou muito individualista, pretendo que a instituição interfira o mínimo no meu trabalho. Negociar o máximo, criar uma simbiose entre ambos....para os artistas mais velhos é mais fácil se impor, agora para os mais jovens existem muitos limites. Uma coisa, arte pra mim é bandoleira: as instituições não compreendem... quanto mais regras menos favorece a prática artística... o estado até apóia, mas sem complicar demais... Os produtores, gerenciadores de projetos são meios importantes para os artistas agirem sem ter que ficarem à margem.

Fermentações Visuais - O que ele diria a um artista que esta começando?


Cildo Meireles: “Jovens envelheçam, envelheçam depressa... ” (citando Nelson Rodrigues) Tem que ter paixão! As pessoas falam de talento, obstinação...na maior parte da minha eu só acreditava no meu trabalho, é solitário mesmo! Não é uma carreira, é uma loteria! Desde pequeno minha mãe falava: “esse menino só vive com esses desenhos!” O artista tem que saber se é isto que ele quer! Tem que batalhar, acreditar até ter uma chance disso virar real.

Fermentações Visuais – o que pensa sobre a fala de Aracy Amaral (falamos das críticas elogiosas que ela fez a Meireles na sua palestra no 8 de maio, em Natal), sobre o futuro e a retrospectiva na Tate Gallery, em Londres, para 2008?


Cildo Meireles: Poxa! Eu fico feliz, honrado de ver que toda batalha vale a pena! Sinto- me recompensado. Sobre o futuro quero trabalhar...artista é como ciclista: pára quando cai! A retrospectiva cobre desde os anos 60 até os trabalhos mais recentes que estarão nessa exposição incluindo Missão/Missões (1990) e Desvio para o Vermelho (1986). Ao todo serão 6 ou 8 peças expostas. São peças grandes. Recebo essa retrospectiva de forma super legal. Ela veio através do Vicente (Todoli) que foi responsável pela minha primeira individual na Europa, no Instituto Valenciano de Arte Moderna, na Espanha . Depois expus em Portugal e depois nos EUA, em Bostom. Essas exposições no exterior me abriram muitas portas....a exposição da Tate Gallery acontece no dia 4 de outubro de 2008. A minha preocupação é que os trabalhos fiquem bem montados,o resto e conseqüência...
FV
Publicado em 11 de março de 2008

07/03/2008

18 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA


ARTE DESCOBERTA

por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi


Olho. M. C. Echer (1898-1972)

No livro Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise, o psicanalista João A. Frayze-Pereira, comenta que no ensaio do filósofo Gerard Lebrun “A mutação da Obra de Arte” (1983) há uma busca para compreender a arte contemporânea não mais como uma contemplação dos trabalhos, mas como um estudo dos sinais que são apresentados, da realidade do entorno.


Segundo Lebrun, “A maior parte do tempo, uma imagem nos interessa porque indica alguma coisa que não está na imagem: pelo que nos deixa adivinhar, ou pelo que continua a ocultar. Somos muito mais os detetives do sensível do que os seus voyeurs”.


Com certeza essa busca que rompe o conforto já acomodado do olho gera bastante surpresa para os que se aventuram na busca das novas percepções e sentidos. Aprimorar o olhar e abrir os horizontes faz parte do caminho para penetrar no visível tal como a sobrevivência do cotidiano. É uma apuração.


Se as exposições aqui não investem em formação, em educação, em monitoramento, guias, textos, etc cabe ao público colocar para fora todos os seus questionamentos para facilitar o seu entendimento ao invés de silenciar e, por outro lado, gritar suas inquietações quanto a esse perfil de exposição que pressupõe um público já formado, com domínio pleno de tudo!


Se algo lhe choca, preste muita atenção a esse sentimento, a essas sensações advindas porque você terá, com certeza, indícios fortes de que é um valioso caminho para se entender e entender o mundo ao seu redor. As obras estão a seu dispor para serem degustadas e não consumidas como fast-food. Pergunte-se “O que busca o artista?” Lance um novo olhar às obras que você encontra! Aventure-se na descoberta de sair do seu ponto de conforto.


Acostumamos a silenciar e aceitar o silêncio como uma premissa de compreensão quando também se faz necessário impregnar o mundo com outras falas, olhares, contextos. Redescubra dúvidas e entendimentos. Frayze comenta que em toda a história da arte, nunca os artistas empregaram tanto o próprio corpo como na contemporaneidade como forma de gritar tudo a sua volta e o silêncio do expectador é recorrente. É preciso acordar do que nos dissolve em calmaria e no meio ao que se convenciona a agir politicamente correto.


Ao artista também cabe, de forma eloqüente, romper com a fragilidade institucional dominante possibilitando que o sensível que o envolve e desperta ocupe um lugar preponderante , provocador e sinfônico que torne o vazio repressor não percebido pelo cotidiano numa movimentação inscrita em sua própria alma e na alma de quem se permite a descobrir novos e velhos universos.
Publicado em 04 de março de 2008

27/02/2008

17 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

VINCENT POTIGUAR

Excepcionalmente, em homenagem ao artista plástico Thomé, a coluna dessa semana do Fermentações Visuais é um depoimento escrito por Flávio Freitas, pintor e amigo de Thomé.

Thomé. Foto Iano Andrade. 2001

Quinta-feira a tarde recebo uma chamada no celular, minha mulher avisa que soube no trabalho que Thomé havia cometido suicídio com um tiro de revólver. O choque da notícia me provocou dúvida e confusão. O artista e ser humano Thomé que conheci não encaixava neste evento funesto. Pouco depois lembrei de nosso último encontro no festival do camarão na Ribeira em que nos cumprimentamos e ele me pareceu menos expansivo e alegre como eu o conheci.


Só acalmei minha revolta conversando sobre Thomé, com um grande amigo e ele me alertou: “A mente humana possui poças de areia movediça de onde nem sempre é possível escapar-mos.”


Conheci a pintura de Thomé através de minha avó Hermengarda (O’Grady de Paiva Ferreira de Souza), pintora e decoradora, que o considerava entre os três grandes pintores de Natal na década de 70: Newton Navarro, Dorian Gray e Thomé. Muitos anos depois, em meu ateliê da Av. Afonso Pena tive o prazer de conhece-lo pessoalmente em uma visita cordial. Admirador de sua pintura fiquei logo fã da pessoa de Thomé. Pela simplicidade, alegria, amizade e humildade. Impressionou-me a sua disposição em aprender comigo e meus dois ajudantes a técnica da serigrafia sobre papel. Criou um projeto de dez ou doze paisagens e logo começou a trabalhar. Intensamente, como um artista apaixonado, dedicou muitas horas em meu ateliê aperfeiçoando, afinando e adequando as técnicas da serigrafia ao resultado que pretendia. Sua risada marcante, espírito brincalhão enchia meu lugar de trabalho de alegria. Suas observações sobre cores e contrastes, as constantes alterações das matrizes, me contagiava de amor pela arte de pintar.


Em pouco tempo ele já dominava o processo completo e levou um de meus ajudantes para imprimir resto da coleção em seu ateliê. O resultado foi apresentado numa grande exposição no Palácio Potengi (Pinacoteca do RN). Serigrafias de altíssimo nível, com um grande público e sucesso de vendas. Embora ele tenha optado por papel e tintas mais baratos, coerente com seu desejo de produzir arte mais acessível, o resultado artístico da coleção de serigrafias é um marco na historia da pintura em nosso estado.


Thomé me contou que havia feito um esforço em sua carreira de pintor, e nisso foi precursor, para produzir pinturas mais baratas e ampliar no público potiguar o gosto pelas obras de arte originais, num tempo em que a moda era decorar as paredes com posters e gravuras dos grandes mestres da história da arte. Seu trabalho com a gravura em serigrafia de tiragem limitada sintonizava com o desejo de alcançar mais gente com uma obra mais barata e menos massificada.


Me impressionou fortemente como ele solucionou a gravura do Morro do Careca na luz do amanhecer. Uma composição de cor complexa e somente possível para os graduados na arte de pintar. Encantei-me também com as pinceladas livres e qualidade abstrata da gravura do parque das dunas.

Convivendo com Thomé aprendi muito e descobri que ele foi até hoje o único potiguar (morando aqui) a participar da Bienal de São Paulo, o evento de artes visuais mais importante da América Latina. Identificamos histórias em comum como o fato de termos vivido nos Estados Unidos na mesma fase da vida, o amor pelo Rio Grande do Norte e suas paisagens e às cores como linguagem para se comunicar com o mundo.

Depois desse convívio, em que eu procurava manter sempre umas três latas de cerveja na geladeira para oferecer ao mestre Thomé, ele foi deixando as visitas eventuais. E depois me disse que estava se dedicando a sua fazenda aonde montava um Hotel Fazenda. Fiquei triste em perceber seu desinteresse pela pintura, mas cada um sabe aonde quer gastar suas energias. Prometeu me convidar para uma dia de pintura na fazenda mas nunca aconteceu. Com minha mudança para a Ribeira, nunca mais recebi sua visita amiga.

No dia seguinte da sua morte, abro um dos maiores jornais do RN e vejo apenas uma foto do artista e um pequeno e medíocre texto sobre sua morte, no caderno da cidade. Nenhuma foto de suas obras, nenhuma referência a importância de sua pintura. No caderno de Cultura......nada. Só assuntos de relevância menor em relação ao artista Thomé. Nenhuma referência ao fato de Thomé ter sido mestre, guru e padrinho da minha geração de artistas neste Rio Grande. É estarrecedor o desprestígio das artes visuais em nossa a cidade. Há razões históricas e de outras naturezas para este estado de atraso, mas eu esperava mais, mesmo assim.

Nesta semana triste interrompi a leitura, dias antes da morte de Thomé, do livro “As Mulheres de Van Gogh”. Fiquei incomodado com o esmiuçamento da vida íntima do gênio da pintura, a quem tanto admiro. A genialidade de Vincent, como queria ser chamado, não tem nenhuma ligação com suas dificuldades mentais. Parei de ler o livro porque não tenho necessidade de compreender suas fraquezas e dificuldades emocionais para reconhecer a grandeza do seu legado para a humanidade. E o livro gira em torno do ato final de Van Gogh, o estampido seco do tiro de revólver contra seu próprio corpo.

Assim, com o mesmo exato gesto, Thomé Filgueira, artista, amante dos cavalos, dos animais, das mulheres, do Rio Potengi e das paisagens do vale do Ceará-Mirim, deixa esta vida... em que ficamos. Deus nosso pai, o acolha e abençoe seus familiares e amigos.

Natal, 18 de fevereiro de 2008
Flávio Freitas


PUBLICADO EM 26 DE FEVEREIRO DE 2008

19/02/2008

16 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

A ARTE CONTEMPORÂNEA É INTEGRADORA
Por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi


Monalisa Graffiti, versão radical L.H.O.O.Q. Bristol Reino Unido



No livro Poéticas do Processo – Arte conceitual nos Museus, Cristina Freire comenta que "Falar da história da arte contemporânea é atualizar um paradoxo. Como ser "história" e "contemporaneidade" a um só tempo?".


A arte contemporânea não segrega, omite ou ignora a história, ela a integra e a constrói. É uma reflexão de nosso tempo, de nossas linguagens e conceitos que perfazem um percurso do cotidiano, engloba um olhar sobre o passado e se lança ao futuro abarcando experimentações e privilegiando possibilidades congregatórias em diversos campos além de criar panoramas múltiplos trazendo novos questionamentos a tudo o que vivemos.


Essa possibilidade intensa é uma das fermentações mais vivas que temos. Não existira a arte contemporânea sem todas as escolas anteriores. As proposições, a atitude crítica, os novos materiais, as experimentações estão presentes em toda a história da arte, entretanto é na arte contemporânea que os dogmas caem. Ela cria e se recria sem atitudes colidentes mas trazendo à tona os questionamentos atuais e não somente a plasticidade artística.


A construção, numa obra de arte, diz respeito a sua lógica interna, e não a dos conceitos ou a lógica aristotélica, com premissas e conclusão. Trata-se, de uma racionalidade intrínseca ao processo de unificação de todos os elementos da obra. Ou seja, os elementos, a relação entre eles e a organização são constitutivos de um DIScurso, possuidor de uma lógica que faz referência ao mundo.


Arte é conhecimento tanto para o artista que cria, como para o apreciador. O artista que lança uma nova proposição como quem lança, a cada estação, uma coleção de moda perde-se em seu próprio turbilhão de idéias. É preciso maturar, aquecer as próprias perspectivas de um trabalho que se construa numa trajetória, em um amadurecimento.


Os artistas contemporâneos devem investir na pesquisa de materiais, de conhecimentos/saberes e de linguagens construindo seu percurso crítico e possibilitando novas formas de expressão que abrangem amplas possibilidades de experimentações e esse processo também delineia a história que escrevemos.
Publicado em 19 de fevereiro de 2008

15/02/2008

15 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

CATIVEIRO VELADO
Por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi


Obra Cor, 2006 - Acrílico dentro de caixa recortada. Obra Rubens Gerchman Foto: Maurício Lima

http://www.rubensgerchman.com.br/

A arte é o exercício da liberdade “. As palavras do crítico e militante Mário Pedrosa produziram uma das mais belas reflexões sobre o fazer artístico e de todo o conceito incluso na história da arte como também sobre a sociedade e suas ramificações.

A frase gera uma análise do sistema no qual estamos imersos e dominados sem a menor resistência crítica. O conhecimento deixou de ser um embasamento enraizado na formação do indivíduo para dar espaço a um conceito de informações fragmentadas, vazias, sem atividade intelectual, artística e cultural de bom conteúdo, ofertado a uma população enganada na mais absoluta farsa política.

A arte é ainda um dos poucos pólos de resitência e formação crítica que temos. Vivemos imersos na complexidade relativizada do consumo e da cultura de massa de embuste produzido pela mídia, e oferecida como uma linguagem acessível – na verdade – muito mais popularesca do acessível – que visa tão somente à cruel dominação do poder do dinheiro em nome de tudo o que pode ser tradição ou vanguarda legítimas.

Ao cidadão não cabe nem mesmo o questionamento do aplauso dado ao medíocre, às produções criadas unicamente com o intuito de ganhar dinheiro. Aplaudir é banal. Isso já foi dito.
O aplauso não é mais reverência – é troco de uma moeda cunhada na aparência e no oco dos sentidos.

As cidades se perdem. A memória arquitetônica e histórica é destituída em nome de um letreiro gigantesco, de prédios milionários ou de divisórias que transformam um patrimônio cultural e artístico como mais uma sede do poder, mas sempre em nome da “democracia”. Perdemos a nossa história.

O consumo alienado desvirtuou a inteligência. Pensamos na lógica dos parcelamentos dos cartões de crédito. Ignoramos a formação dos filhos em troca da “modernidade” de transformar uma criança numa miss, modelo, manequim e apresentadora de tv, como bem retratou o filme Pequena Miss Sunshine, numa das mais contundentes críticas a nossa sociedade.

Vivemos uma prostituição velada na qual crianças são induzidas a acreditar no fantasioso preço da fama e do dinheiro. A arte ainda resiste, embora sofra os mesmos atentados. Políticas culturais tacanhas e leis de incentivo que não alimentam – no mais puro sentido da vitalidade – ganham espaço.

Se não praticarmos a revolução do pensamento abrindo mão de uma sociedade sem tanta opressão, violência política e armada – numa indústria de segurança que cresce tanto ou mais que a própria indústria bélica, seremos eternamente reféns da alienação e vamos seguir preferindo ver um Big Brother Brasil a ir a uma exposição de arte.

Quando as políticas públicas se travestem nos discursos vazios que preenchem televisão na campanha de obras visíveis ao invés de agir participativamente nas propostas de ações sociais, urbanas, artísticas ou em qualquer campo gerador de uma liberdade melhor, e de investir na tríade básica da educação, saúde e cultura, temos a certeza de que nada mudará.

Mário Pedrosa defendia que a arte e a política são as duas formas mais elevadas da expressão humana e a única postura diante delas é a do engajamento militante e crítico. Algo se perdeu nesse caminho.
Hoje fazemos coro à atriz Marília Pêra em relação a maior lição que tinha aprendido com as ideologias políticas: “Tanto faz o lado em que os políticos estão. O que eles querem apenas é poder e dinheiro. O resto não passa de utopia.”


PUBLICADO EM 12 DE FEVEREIRO DE 2008

30/01/2008

14 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

SALVEMOS A PINACOTECA DO RN!
por Jean Sartief, Sânzia Pinheiro e Marcelo Gandhi


Pinacoteca, seus dias estarão contados???? Foto: Jean Sartief

Em maio de 1968 aconteceu, na França, a famosa “revolução romântica” que desencadeou uma contestação global em meio a efervescência sociocultural que o mundo vivia após a Segunda Guerra. Estudantes tomaram conta de Paris em um movimento que causou estardalhaço ao sistema opressor e limitante existente. Exigia-se coerência, liberdade e democracia incorporando ao movimento a arte e a poesia. Os museus foram um dos alvos de contestação dessa revolução e gerou uma mudança no posicionamento e ação com o público.


Em seu livro, Entre Cenografias – O museu e a exposição de arte no século XX, a professora de arte da USP, Lisbeth Rebollo Gonçalves, analisa que a partir desse momento histórico, os museus como instituições intocadas são colocadas em questionamento, num desejo profundo de arejamento, simbolizando uma concepção de museu aberto como instrumento de difusão e comunicação em ligação direta com a vida urbana.


Passados 40 anos e uma série de outras manifestações, e novas conceituações dos museus, encontramos nas terras potiguares a básica luta pela defesa de uma instituição como a Pinacoteca, no Palácio da Cultura, quando deveríamos estar batalhando pela sua melhoria crescente, pela ampliação do acervo, pelo treinamento adequado aos funcionários e contratação de profissionais competentes para administrá-la ao invés de termos que juntar esforços para conscientizar o poder público da necessidade de manutenção desse ícone de nossa identidade cultural.


A Pinacoteca do RN como outros museus sobrevivem ameaçados de extinção. Os museus de arte pelo mundo todo investem em atrativos e se constituem em equipamento educacional. A Pinacoteca, prédio neoclássico, que abriga a história das artes visuais do RN, o maior e talvez melhor acervo do Estado encontra-se ameaçada. Investir no Museu Pinacoteca valoriza o potiguar, que passa a conhecer mais da sua história. São inúmeras as experiências na qual há um empenho real para se documentar, agregar e formular uma logística que dê movimento ao arsenal cognitivo e cultural.


O Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, com projeto de Marcelo Dantas, apresenta informações textuais e visuais da língua portuguesa em suportes lúdicos, usando e abusando dos recursos como o vídeo e a fotografia. Contam ainda com a presença de bons monitores e de uma exposição do acervo que muda a cada dois ou três meses. A proposta de transformar o prédio da Pinacoteca em estrutura política é uma visão típica dos políticos do RN que não enxergam uma a arte como a alta expressão de um povo e não somente como estratégia política.


Vamos nos questionar por que existe tantos editais para museus no site do MINC? Por que há um movimento mundial de criação e não de fechamento de museus? Como exemplo, Pirâmide do Louvre, Paris/1989, o Museu de Arte Moderna de Frankfurt, Alemanha/1990, o Grand Pallais de Lille, França/1994; Museu de Arte Contemporânea de Bilbao, Espanha e o Tate Gallery of Modern Art, Londres, ambos de 2000 e aqui lutamos para manter viva a nossa Pinacoteca com seu acervo precioso (em péssimo estado de acondicionamento, com obras de Leopoldo Nelson, literalmente se desfazendo). Ainda não acordamos para a contemporaneidade. Ainda somos uma fazenda iluminada ao invés de iluminarmos e valorizarmos a nossa arte e nossos artistas.


Segundo Aracy Amaral, Leonor Amarante, ÍBIS Hernandez e outros curadores que aqui estiveram, o prédio da Pinacoteca é próprio para tal. Possui um pé direito capaz de abrigar grandes exposições. Não há outro no Estado! Temos a essência, a vontade de liberdade e luta pela arte!

EM 29 DE JANEIRO DE 2008

26/01/2008

13 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

PARA QUE SERVE A ARTE? - por Sânzia Pinheiro, Jean Sartief e Marcelo Gandhi

Obra de Sayonara Pinheiro


Estamos na primeira década do século XXI e as artes visuais do RN carecem de desenvolvimento. Não é devido à ausência de artistas antenados com a produção atual. Tivemos Zé Frota e Nuno Rama contemplados com o Prêmio Porto Seguro – um dos melhores em fotografia no Brasil. Marcelo Gandhi mapeado pelo Itaú Cultural. Guaraci Gabriel e Sayonara Pinheiro participando de bienais internacionais. João Vianei integrando a Quienal de gravura.


No final da década de 70, Jota Medeiros, transformou o suplemento cultural Contexto, do jornal A República, num veículo das mais diferentes tendências da arte e da literatura que se praticava no mundo. Esse artista integra o acervo do MAC/USP e está no livro Poéticas do Processo, de Cristina Freire, além do Poema Processo. Isso sem falar em inúmeros outros artistas premiados pelo Brasil.


O nosso maior problema tem sido as instituições, o pensamento limitado existente por muitos dos que administram e trabalham sem treinamento adequado, e burocracias ininitas. Temos um salão que tem o mérito de 11 anos de existência e que até agora deu passos tímidos dentro de um formato tradicional que pouco fomenta a produção.


O curso de artes visuais da UFRN não aposta na formação de artistas e sim, de professores. Você pode encontrar na página do site da coordenação do curso, notícias do Supremo Tribunal Federal, eventos jurídicos e link para a base “Lógica, Conhecimento e Ética”, nada contra! Até gostamos de lógica, mas sobre artes visuais!


Os espaços expositivos disponíveis, em sua maioria, não possuem um projeto administrativo, voltado para o fomento nem profissionais treinados. No máximo têm-se um edital. A Pinacoteca do Estado corre o risco de ser desapropriada, pelo próprio governo, após centenas de exposições, salões e mostras no Palácio da Cultura. O acervo dessa instituição possui em torno de 800 obras sem acondicionamento. Para que serve a arte no RN?


Na história da humanidade aquilo que reconhecemos como artes visuais têm desempenhado um papel fundamental. A partir do renascimento, os artistas passaram a produzir uma arte que vai além da decoração. As pinturas, painéis e esculturas são, assumidamente, expressões de pensamentos. Produção de conhecimento! Os artistas estavam na categoria intelligentsia, ao lado de cientistas, filósofos e poetas e assumiam a construção de um novo mundo. A perspectiva nas telas retoma as questões dos filósofos gregos e conduzem a uma retomada do humano e da racionalidade.


No início do século XX, as artes visuais dão visibilidade a desintegração do mundo e a ausência da ordem proclamada pela ciência newtoncartesiana. Na virada da 2ª metade do séc. XX, os artistas participam da ressurreição do cosmos, e fazem uma arte desmaterializada, comprometida com a vida. Lygia Clark, Joseph Beuys, Marcel Duchamp, Hélio Oiticica, Robert Rauschenberg, entre outros, passam a produzir uma arte capaz de provocar o desenvolvimento humano.


E essa é a questão aqui! Arte como desenvolvimento da capacidade criativa. Arte como meio para a reorganização do pensamento a partir de uma lógica que admite a contradição, o terceiro, as ambivalências, a liberdade e o inacabado. Pois são esses alguns termos da dinâmica do agora. Uma das características da arte contemporânea é o hibridismo, exigindo do observador o exercício do pensamento relacional tão caro a criação. Agora, para que serve a arte no RN?


EM 22 DE JANEIRO DE 2008

12 - FERMENTAÇÕES VISUAIS - TRIBUNA DO NORTE - TODA TERÇA-FEIRA

DA ADVERSIDADE VIVEMOS! - por Sânzia Pinheiro, Jean Sartief e Marcelo Gandhi

cartaz da mostra Nova Objetividade Brasileira.


Hoje, trazemos um resumo de um texto histórico de Hélio Oiticica, publicado no catálogo da mostra Nova Objetividade Brasileira, em 1967, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O artista aponta a antropofagia (1928), como decisiva para a chegada (em 1960) da Nova Objetividade. Sugerimos a leitura do texto, na integra, (via internet) como mais um grão energético no desenvolvimento da artes visuais do RN.


Os 6 pontos apresentados por Oiticica, geram a reflexão de o quanto as nossas instituições estão aquém do processo brasileiro, pois são atualíssimas, então vejamos:


1- Vontade construtiva geral. Somos um povo à procura de uma caracterização cultural e isso nos diferencia do europeu (peso cultural milenar) e do americano (solicitações super-produtivas). A Antropofagia seria a defesa contra tal domínio exterior, e a principal arma criativa; o que não impediu, uma espécie de colonialismo cultural, que deseja-se ver abolido. Aqui o convite é para o mergulho na nossa cultura. Uma pesquisa aos modus cascudiano. Um microscópio num olho e o telescópio no outro.


2- Tendência para o objeto, ao ser negado e superado o quadro de cavalete. O fenômeno do fim do quadro de cavalete, e surgimento oposto da criação de relevos, antiquadros, até as estruturas espaciais ou ambientais e a formação de objetos, numa linha continua, até a eclosão atual. Oiticica analisa a transformação dialética vivida por Lygia Clark, Antônio Dias, o grupo do Realismo Mágico de Wesley Duke Lee e Waldemar Cordeiro (e outros) que com o Popcreto trazem o conceito de 'apropriação'.


3- Participação do espectador (corporal, táctil, visual, semântica etc.). Há 2 formas de participação: uma envolve "manipulação" ou "ação sensorial-corporal" e a outra, uma "participação semântica". Estas buscam uma totalidade, envolvendo os dois processos; isto é, não se caem no puro mecanismo de participar, mas concentram-se em significados novos, distinguindo-se da pura contemplação.


4- Abordagem e posicionamento em relação a problemas políticos, sociais e éticos. Cabe aoartista procurar o pleno envolvimento; erguer alicerces de uma totalidade cultural operando mudanças na consciência do homem, que de espectador passivo dos acontecimentos passa a agir sobre eles usando os meios que lhe afloram: a revolta, o protesto, o trabalho construtivo para atingir essa transformação etc. O artista torna-se modificador também de consciências (no sentido amplo, coletivo).


5- Tendência para proposições coletivas e abolição dos "ismos", típicos da primeira metade do século XX, (que pode ser englobada no conceito de "arte-pós-moderna", de Mario Pedrosa). Há 2 maneiras de propor uma arte coletiva: a primeira, seria a de jogar produções individuais em contato com o público das ruas (claro que produções que se destinem a tal, e não produções convencionais aplicadas desse modo) – outra, a de propor atividades criativas a esse público na própria criação da obra. A arte coletiva está ligada intimamente ao problema da participação do espectador.


6- Ressurgimento e novas formulações do conceito de antiarte. O problema poderia ser enfrentadocom a pergunta: Para quem o artista faz a sua obra? Vê-se, pois, que sente esse artista uma necessidade maior, não só de criar, mas de comunicar algo que lhe é fundamental. Uma comunicação em grande escala e não para uma elite reduzida a experts, mas até contra ela, com a criação de obras não acabadas, "abertas”, como ponto fundamental no conceito de antiarte.


Oiticica finaliza com uma frase que acredita representar o espírito da "nova objetividade" (síntese de todos esses pontos). Ei-la: DA ADVERSIDADE VIVEMOS!


EM 15 DE JANEIRO DE 2008